domingo, 22 de maio de 2016

Tudo sobre minha mãe

E foi assim que acabei com uma filha loira de olhos azuis nos braços.
Nossa família já nasceu "problematizada". Sou uma brasileira que mora na Bélgica há 7 anos, 2 anos entre idas e vindas, definitivamente há 5 anos. Meu marido é belga, nos casamos no fim do verão de 2014. Já no começo de 2015 engravidamos e nossa florzinha nasceu no inverno daquele mesmo ano.
Ela é uma bebê linda, linda mesmo, a mais linda (estágio avançado de Síndrome da Mãe Coruja que afeta sem distinção todos os credos, etnias e classes sociais). Durante a gravidez ficávamos tentando adivinhar como ela seria já que nosso leque de variedade genética era bem amplo, pelo menos do meu lado. Na família do marido era mais do mesmo, todo mundo loiro de olho azul a várias gerações, um e outro com o cabelo mais escurinho. Do meu lado temos de tudo. Minha mãe é negra retinta, meu pai é ruivo, meu avó materno é negro de olhos azuis, o paterno é branco de cabelo crespo... Eu sou uma negra de pele clara, segundo costumam me definir aqui na Bélgica, uma brasileira típica. E eis que, apesar das bochechas da mamãe, nossa bebe nasceu com a pele bem clarinha e os olhos azuis. O cabelinho era preto, mas foi caindo e agora ela esta cheia de fiozinhos dourados que começam cachear.
Desde a época do nosso namoro conversamos muito sobre questões raciais em casa. O marido não entendia muito, a lógica aqui é outra. Ele é uma pessoa maravilhosa incapaz de fazer mal a uma mosca mas precisou ter o traseiro chutado pra fora do seu cercadinho de privilégios muitas vezes pra entender as coisas, tem funcionado. Na primeira viagem ao Brasil presenciou perplexo uma briga entre um casal de amigos, ela negra e ele branco, o namorado a chamou de macaca. Clássico. Antes mesmo disso acontecer, o marido já dizia que não entendia o que uma mulher linda como ela fazia com um babaca como aquele, eu também nunca entendi. Pensa no quão babaca você tem que ser pra uma pessoa que sequer fala português direito te achar um babaca. Enfim, expliquei pra ele que se tratando de relacionamentos no Brasil, o buraco era mais embaixo.
Meu marido foi o único namorado que tive na vida, por assim dizer. O primeiro que andou de mãos dadas comigo, que me pediu em namoro, que me apresentou pros pais, que cuidou de mim quando estive doente, que atravessou meio mundo pra conhecer minha família. Por outro lado, tenho histórias como qualquer outra de namoros as escondidas, de não poder contar pra ninguém, de desaparecidos depois de uma noite, de preterimento. Essa solidão da mulher negra que muitos ainda gostam de jogar pra baixo do tapete... Mas estava tudo bem, eu sabia os tipo que com que estava me envolvendo, nao queria aceitar, achava que ia mudar, etc... Mas sabia. e sempre fui da máxima do antes só que mal acompanhada.
O tempo passou, decidi passar uma temporada fora num intercâmbio e conheci meu marido. É tão bom ter alguém que se importa conosco, mas deu aquele sentimento estranho de que tinha alguma coisa errada, como se aquela historia não me pertencesse, acho que isso também vem de anos de depreciação da nossa imagem. Nunca fui a mais bonita da turma nem a primeira escolha de ninguém na minha adolescência e juventude, sei que muitas sabem do que estou falando. Foi bom saber que não precisa ser sempre assim, foi libertador falar sobre esse assunto com meu marido, mesmo que só depois de alguns anos juntos. Ele ouviu tudo, indignado mas sem entender, é lógico que na Bélgica há preconceito, mas esses requintes de crueldade parecem ser exclusividade brasileira.
E nosso diálogo continua até hoje, agora ainda mais por causa da bebê. Ela será criada bilíngue, português e holandês. Terá o máximo possível de contato com a cultura brasileira, musicas, histórias, minha família. Saberá que carrega o nome da minha avó materna, mulher de fibra que foi neta de escravos e mesmo que suas origens não aparecem na pele, elas estão ali e são parte do que somos, eu e ela.
Saberá que ser mulher nesse mundo também não é tarefa fácil, que ela é privilegiada por nascer onde nasceu e por ter acesso a coisas que muitas outras meninas como ela não terão durante sua infância.
O meu desafio é criar a minha pequena para ser um tijolinho nesse mundo, ser justa, correta, ter empatia, respeitar a dor dos outros mesmo que a mazela não a atinja diretamente, ser agradecida pelo que tem sem se esquecer que é também obrigação dela, facilitar o acesso do outro ao que lhe falta. Mais um desafio nessa aventura deliciosa que é ser mãe.

2 comentários:

  1. Menina quanto tempo!
    Muito legal saber que agora é uma família de três.
    Espero que siga postando. Há assunto aqui pra boas discussões.
    Bj

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rosa, querida, como vc esta? O blog continua meio abandonado mas agora estou postando no maternidade sem fronteiras, passa la! De resto, passa seu face ou instagram pra gente se falar mais, saudades!

      Excluir

Pin It button on image hover