sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie

A primeira reação de qualquer pessoa que tenha o mínimo de sensibilidade diante de tamanha barbaridade é aderir a causa, "Je suis Charlie", li algumas dezenas de vezes na minha timeline ontem. Quase foi a minha reação também. Confesso que não conhecia a revista Charlie Hebdo, não conhecia a fundo a história mas quando vi que se tratava de uma revista de extrema esquerda sendo atacada (literalmente) por charges contra o islã, preferi digerir um pouco antes de opinar. Havia uma questão de valores aí que para mim não batia.
A revista foi criada no final da década de 60, um contexto totalmente diferente de hoje. Quero deixar claro que acredito muito na arte como forma de protesto, mas me parece que a revista acabou tomado outro rumo nos ultimos tempos. Foram alfinetadas ácidas que para mim causaram mais efeito colateral do que instigaram o pensamento e a discussão. Separei algumas das que eu achei mais indigestas (sei que deveria ter colocado as fontes, mas estou com pouco tempo e muita preguiça, foi tudo tirado do Google mesmo)

Para você que é contra racismo.


Para você que defende a liberdade sobre o próprio corpo

Para você que não gosta de ser um mero pedaço de carne

Essa aqui não sei nem comentar. Qual a necessidade?

Para você que pratica outra religião

Eu nunca tive muito saco pra piada e com o passar dos anos foi piorando. Não sou consumidora de humor, não gosto de comédia, não contem piada pra mim, por favor! Gosto de humor bem pastelão ou situaçãoes engraçadas onde se ri ¨com¨ e não ¨de¨. Odiaria ver uma piada racista, sexista ou gordofóbica estampada na capa de uma revista, essas são as categorias que mais me ofendem pessoalmente falando. Mas a empatia me faz entender a ofensa sofrida por um homossexual, muçulmano, católico, umbandista... Desculpe, não consigo entender como as charges acima incitam discussão política, eu so vejo ofensa e acho que ofender pessoas não deveria ser direito de ninguém. Ok, um caneta não mata ninguém, concordo. Chamar preto de macaco também não mata, tá liberado por isso?
Mesmo no calor dos acontecimentos, acho que vale uma análise mais cuidadosa. Liberdade de expressão não pode ser desculpa para desrespeito, essa sempre foi minha opinião e não vai mudar.  Se a revista questionava a ordem em vigor, vai bater nos muçulmanos porquê? Que força política eles representam na França? Veja bem, não estou falando do terrorismo, estou falando de representação política, poder de verdade, no papel. As mulheres sequer tem direito de usar burka em público (não vou entrar nessa discussão aqui, entendo os motivos que levaram a proibir mas ainda acho que fere o direito de decidir sobre o próprio corpo).
Quem mora na Europa e tem o mínimo de senso crítico (não estou falando dos que acham que porque moram aqui há 3 anos, falam o idioma e não são muçulmanos/árabes já receberam o selo europeu de qualidade) sabe o caldeirão étnico prestes a entornar que é isso aqui. Liberdade de expressão, pode soar bonito, mas há que se ter discernimento para entender que os tempos mudaram e insistir nesse anacronismo pode ser perigoso, como foi.

Imagina a KitchenAid hoje em dia com um comercial desses? 

Acho que amadureci, ou talvez só tenha ficado careta. Cheguei aos 30, me casei, tenho um emprego trivial, adoro cozinhar. Aprendi a falar menos e escutar mais, acho que foi uma evolução forçada pelo idioma estrangeiro, ossos do ofício. E penso em  ser mãe num futuro próximo, por isso, "Je ne suis pas Charlie". Por mais que digam o contrário, acho que isso seria endossar a ¨liberdade de expressão¨ distorcida que discordo e isso eu não posso fazer.  Adoriaria que meus filhos pudessem viver num mundo onde não se cala a voz discordante com tiro de fuzil mas também que pessoas não sejam humilhadas gratuitamente em prol do humor ou de uma liberdade que definitivamente não contempla a todos.
Gostaria de um mundo com mais amor e respeito em todos os quesitos, onde as pessoas gastassem menos energia com coisas que além de não gerar bons frutos, correm o risco de se tornarem belos tiros saindo pela culatra. Torço muito para que os culpados sejam punidos, o que aconteceu é inadimissível. Mas se pensarmos com um pouco mais de frieza, o que ficou dessa história? Na minha opinião, duas coisas: a dor da perda de entes queridos às famílias e (veja bem a ironia do destino porque se trata de uma revista que se posiciona como esquerda radical) um desserviço enorme já que a direita ultra conservadora vai, mais uma vez, usar essa carta para insuflar xenofobia num cenário que já não está favoravel há muito. Valeu a pena?

4 comentários:

  1. Excelente o seu texto. Gostei de ler para ouvir a perspectiva de uma outra pessoa porque a mídia está colocando ênfase nos ataques sem explicar as origens.

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    1. Obrigada Anna, é uma questão bastante delicada mesmo, acho que nada justifica os ataques, acredito que nosso sociedade está maluca de tds os jeitos.

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  2. Concordo com você. Pra mim esse Charlie não passa de ofensa gratuita e não tem graça nenhuma nestas charges.

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  3. Querido (a) amigo (a) estou dando uma passadinha no teu Blog. E gostei muito e voltarei sempre. U abraço: Manoel Limoeiro de Recife - PE.Brasil.Visite o Blog por favor: http://www.grupounidoderodafogo.blogspot.com.br/

    Recife -PE. 04 de junho de 2015.

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