sábado, 23 de agosto de 2014

Carta a um amigo distante

Hoje foi um dia bem cinza em todos os sentidos, o verão parece que já partiu dando lugar à chuva, vento e frio tão característicos da Bélgica, provocando aquela pontinha de tristeza até no mais otimista dos corações. Mais cedo fomos ao velório de um amigo do Pascal, que com os anos e +o carinho com que sempre fui acolhida pela família, se tornou uma pessoa querida para mim também. Aliás, uma família marcada por momentos muito difíceis, ele era o pai do melhor amigo do Pascal, que também faleceu tragicamente num acidente alguns meses antes de nos conhecermos. Ele tinha muitos planos, com a família, pessoais, é muito dificil acreditar que tudo aconteceu. Tendo sempre a me apagar a memórias de momentos felizes em situações assim, então foi impossível não pensar no Guilherme, um grande amigo que também nos foi tirado muito cedo. Decidi materializar a mania de falar sozinha e escrever aqui tudo o que eu diria a ele se tivesse a chance, aprendendo a mesmo tempo que todo dia é chance de fazer valer cada minuto que temos aqui.

"Guilherme,
Hoje pensei muito em você, uma das pessoas que mais me ensinou sobre o peso e a leveza de viver. Como tenho a felicidade de nunca ter perdido alguém muito próximo da família, posso dizer com certeza que sua morte foi a que mais me doeu. Doeu porque foi de repente, doeu porque você era especial, doeu porque é dificil demais aceitar essa que é nossa única certeza na vida. Engraçado que nosso tempo de convívio foi pequeno, aquele 3° ano com o aluno maluco que chegou de Carmo da Mata pra fazer a alegria daquela turma que já era especial. Risadas, brincadeiras, você me apelidando carinhosamente de Puff, apelido que carrego com carinho até hoje (assim como as bochechas que o inspiraram), apenas para os mais íntimos. E a serenata no Dia das Mulheres? Na porta de cada uma das meninas da sala...  Só você mesmo para conseguir a façanha de transformar todos os meninos em românticos incuráveis naquela noite. Depois cada um seguiu seu caminho, eu fui pra Viçosa, você pra Ouro Preto. Era tão pertinho, não sei porque a gente não se viu mais vezes, não se visitou mais vezes. Mas você era aquele tipo gostoso de amigo que consegue estar perto estando longe, que mesmo depois de anos sempre dá aquele gostinho de que parece que foi ontem.
Sinto sua falta, ainda penso em você as vezes. Penso na minha dor junto com todos os seus amigos do Polivalente, da Casablanca, na dor imensurável da sua família, em tudo que você poderia ter feito, nas viagens, nas festas, nas pessoas que poderiam ter tido o prazer de dividir a vida contigo se a sua não tivesse sido interrompida de maneira tão brusca. Na minha muita coisa mudou, dei um pause sem data na carreira de professora, me mudei pro exterior, também sem data de volta. Lembra que você ria de mim por não aprender a falar inglês? Pois é, aprendi não só inglês como holandês e em alguns dias estarei partindo para o francês, tá, meu bem? E vou me casar mês que vem, acredita? hahaha.. Gostaria de saber o que você diria sobre isso. Ele é um cara muito bacana, habilidoso, conserta tudo o que eu quebro, faz aniversário quase no mesmo dia que você faria. Ao contrário de mim, é muito tímido, fala pouco, desconfiado a primeira vista, mas tem um coração do tamanho do mundo e os olhos azuis mais lindos que já vi. Acho que você aprovaria. E acho que viria para o nosso casamento se estivesse morando em Barcelona como era seu plano, cidade que ainda está na minha wish list, tenho certeza que você não a adoraria se não tivesse algo bem interessante por lá.
O que mais aprendi com sua breve passagem é que cada minuto da vida é importante. Não tenho vontade de voltar a Ouro Preto, você não estaria lá. E se estivesse, será que ainda seria tão maluquinho? Estaria bebendo todas? Teria tido um filho? Ou teria largado tudo e virado hippie? A vida tem que ser apreciada, cada minuto dela. De um minuto para o outro tudo pode mudar e muda, mesmo quando tudo parece igual. Saudade é um sentimento confuso, é gostoso quando a gente pensa com aquele ar de "foi bom", mas doi muito quando a gente pensa no modo "queria de novo", o que com certeza não vai acontecer, mas é a forma com que ela me visita com a mais frequência.
Encontrei vários emails que nós trocamos durante os anos da faculdade, li, chorei... Já faz oito anos que nos vimos pela última vez, contei nos dedos para ter certeza, você sabe que nunca fui boa com contas, além do mais, continua parecendo que foi ontem. Achei nossas fotos da Festa do Doze, acho que são as únicas fotos que temos juntos, e você é claro, tinha que estragar tudo com esse olho roxo e essa droga de nariz quebrado, fruto da brilhante ideia de fazer exercício na barra bêbado. Só gostaria de dizer que você levou um pouco de nós e deixou um pouco de si, que vai acompanhar cada um até que também chegue a nossa vez, mas até lá nos resta viver, viver com vontade, não deixando pra amanhã o amor que podemos dar hoje, nem a visita que podemos fazer ou a cervejinha com os amigos que podemos beber. Me sinto muito grata ter tido a chance de chamá-lo de amigo, continue com Deus, sei que você vai dar um jeito de se divertir muito aí encima."
Com carinho,

Natália


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