quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sem cabresto

"Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda" (Cecília Meireles)

Pensei num sentido bem mais prático e restrito. Hoje eu cansei de ser livre. Queria simplesmente me conformar com a minha condição de mulher, lavar, passar, cozinhar e no auge dos meus 27 anos já me sentir culpada por ainda não ser mãe de pelo menos uns 3 filhos. Queria me sentir realizada por cumprir as tarefas feminas (e eu as cumpro com certeza!), conversar com as outras donas de casa sobre assuntos triviais, ir na Legião de Maria e na missa no final de semana. Queria querer casar de véu e grinalda e ter uma vida estilo Adélia Prado, com beijos de todas as cores plantados no jardim.
Eu queria ser assim, mas tenho sangue nos olhos. Hoje tive um momento de muita indignação. Me peguei lavando louça enquanto a namorado estava bebendo uma com os amigos, pode? Não pode. Ele quase nunca se dá a esse luxo. Sempre me ajuda com a louça e o dia em que ele não ajudou eu achei uma ofensa. Não queria achar, mas achei. E ainda estou com raiva, para ser sincera. Eu não quero lavar louça, quero é ganhar massagem nos pés. Quero cozinhar só quando eu tiver vontade. Prefiro ir pro troco invés de passar meia dúzia de camisas. Quero aprender logo essa língua do cão que cada vez se enrola mais na minha cabeça, quero trabalhar e dividir as despesas meio a meio. Geralmente, meu desejo é que tudo se encaixe e que eu possa realizar todas as exigências o mais rápido possivel, mas hoje não. Hoje eu desejei não querer nada disso. Desejei me encaixar no papel pré determinado (até hoje!, mesmo que em menor escala) da mulher e ser feliz assim. É dificil, mas é tão mais fácil.
Pensa numa pessoa que não precisa escolher. Alguém que vem de uma família de padeiros, por exemplo. A escolha existe, mas ela é opcional. Não consegui explicar direito. Vou tentar de novo. Se essa pessoa quiser ser outra coisa, ela pode ser, mas ela não precisa ser, ela pode simplemente pegar o scrit que já esta preparado e seguir, se tornar um padeiro, assumir o negócio da família e pronto. Aceitando a situação, não haveria conflito na vida dela. Na minha não é assim, assim como a maioria.
Hoje eu queria não gostar de viver perigosamente. De concordar com meu pai que eu tenho meu lugar pré definido. Mas eu não concordo. Deve ter sido a canela de cachorro que eu comi, Vô Joaquim já tinha diagnosticado. Queria ter a simplicidade da Cora Coralina no poema "Humildade", não sentir falta do que  não me pertence, não lamentar o que eu podia ter e agradecer o que eu tenho. No fundo eu acho que tenho sim, mas não é todo dia.
A escolha nós da domínio, mas esse sentimento esconde a angústia. Decidir cansa. E eu tenho medo, porque sei que ser 'rápida e certeira' nunca foi meu forte. Nem sempre a escolha se concretiza com facilidade. Até se concretiza, mas em pedaços. As minhas têm sido assim. E aí as vezes falta a paciência e junto com a impaciência vem uma preguiça ancestral, de só por um momento  saber exatamente o que fazer e ser feliz por cumprir o ciclo. Uma felicidade simples, de quem sabe onde está pisando e onde vai chegar.

2 comentários:

  1. Ai Nati... eu sou uma rebelde desde de sempre. Eu estou sempre incomforda com tudo, eu sempre acho que algo está faltando, nada está completo, que eu poderia mais, que eu quero mais. Assim como você, e também ouço do meu marido que algumas vezes temos que aceitar com mais resignação e tentar ser felizes com a condição atual, pensar que tem sempre alguém pior, mas eu penso que tem sempre alguém melhor.

    E acho que o universo sabe disso, porque se eu tivesse que ser dona de casa, eu me internaria num asilo. Não tenho vocação nenhuma.

    Logo mais você domina o idioma com fluencia e as coisas tomam outro rumo.

    Beijao

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  2. Otimo textos, faço minhas as suas palavras! Abraços

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