terça-feira, 20 de setembro de 2011

Algo que quer ser escrito, mas não lido...

O post de hoje não é engraçado. Não é agradável, não é algo que se goste de ler a respeito, porque em milhares de anos vagando por esse planeta, o ser humano ainda não aprendeu a lidar com a morte. Todo mundo que me conhece sabe que eu não sou diferente. Não vou a velórios e a primeira vez que entrei num cemitério ja estava na casa dos 20. Achei agradável o ambiente. Era um cemitério de herois de guerra em La Paz e o ar 'histórico' do lugar disfarça lindamente o assunto principal. Visitar o tumulo de Napoleão Bonaparte em Paris também foi interessante. O costume de vê-lo em forma de mito nos livros de história o "descaracteriza" como pessoa, evitando também o sofrimento. Ninguém chora por Napoleão.
Essa semana fui a um velório aqui na Bélgica, um tio do Pascal faleceu repentinamente. O velório aqui não acontece como no Brasil. Eles precisam de um tempo para organizar tudo e o funeral so vem a acontecer cerca de uma semana depois da morte. Um dia para o funeral, digo, um par de horas para o funeral, um ou dois dias depois uma missa de corpo presente e o sepultamento. O funeral, duas horas de prazo. As pessoas entram, cumprimentam a família e saem em silêncio. Não pude deixar de comparar com os velórios que varam a noite no Brasil, onde se reza terço, se toma café, se conta piada, se conforta com abraço, se chora pra fora. Minha avó Olímpia é a maior frequentadora de velórios que eu ja conheci. Certa vez perguntei o porquê de ir a todos os velórios que tinha notícia, conhecendo ou não o morto: "É o que eu gostaria que fizessem por mim quando chegar a minha hora", foi a resposta.
A missa foi breve e bonita, nunca tinha visto assim, com o caixão dentro da igreja. Quatro ex mulheres presentes, ora perto do caixão, era junto com a família, lidando ao mesmo tempo com a dor da perda e a administração do conflito feminino. E a mãe. Imagino a dor enorme em enterrar um filho... Mesmo com as lágrimas contidas, vi o momento em que ela tocou a mão dele e disse: "Ele está tão frio...". Foi a forma irrefletida de expressar a dor irracional daquele momento. Chorei por ela. Depois a funerária levou o corpo para ser cremado e voltou horas depois com a urna para ser enterrada. Nunca tinha refletido o que é cremar alguém. Saiu o caixão, voltou uma urna bonita, pequena, de ceramica. Sei que é estúpido, mas me pareceu uma violência tão grande que me vi na necessidade de lembrar ao Pascal que quando eu morrer quero ser enterrada de corpo inteiro!
Depois de colocar a urna dentro da catacumba, a organização das flores e novamente o conflito das esposas. Irrelevante para o morto, convertido num monte de cinzas. Irrelevante também para as esposas, mas ainda sim uma forma eficiente de digerir a dor, que é grande.
Não sei desde quando exatamente o ser humano tem o hábito de cultuar e ritualizar a morte, mas vem de longas datas. Vem desde o momento em que se realiza o quão doloroso é perder alguém, o que significa colocar um ponto final naquela etapa. Para isso não vale ciência, não vale teoria, não vale conhecimento, só coração. Só a irracionalidade de nunca estar pronto pra aceitar a única coisa nesse mundo de que podemos ter certeza: um dia todos se vão...

*Dedico esse post à minha amiga Juliana que também perdeu uma pessoa muito importante essa semana. Ju, a dor é uma etapa da perda. Mas a perda não é pra sempre, é temporária, é nesse estágio. Ela sempre estará com você, acredite.

2 comentários:

  1. Poxa, sinto muito por vcs Nati!

    Apesar de muito ser sempre bem triste, acho bem interessante como cada canto desse mundo realiza um funeral, as diferentes reações das pessoas estão sempre ligadas as culturas e algumas delas tem particularidades muito, muito facinantes.

    Morte é um tema quase tão vasto quanto vida, podemos viver sem anos e nunca entenderemos a morte.

    Beijocas.

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  2. Oi Natália, bonitas as suas palavras. Quando eu era jovem, tinha horror de velórios e cemitérios. Até que meu avô morreu, tanta gente apareceu para abraçar minha avó que fiquei comovida. Nossa presença no velório é para confortar quem perdeu seu ente querido, e conforta mesmo, só aprendi isso naquele momento. Foi muito bonito ver tantas pessoas consolando vovó e compartilhando um pouquinho da sua dor. Ainda odeio ir ao cemit´rio, mas sei que nossa presença é conforto para quem sofre. Fique bem. Beijos

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